|
Para as estruturas conectadas à entrada de informações
sensoriais (input), a simetria é mais do que um embelezamento: a maioria
da informação precisa estar relacionada com uma análise tridimensional de sua
origem e, aqui, a simetria da estrutura de suporte simplifica o processamento.
Forte assimetria requer um alto nível de “correção de entrada de estímulos sensoriais”
(input-correction) e, portanto, é uma desvantagem evolucionária.
A Síndrome KISS
O
termo KISS se refere a Kinematic Imbalance due to Suboccipital
Strain (Desequilíbrio Cinemático devido à tensão sub-occipital). Estas
podem ser consideradas como uma das principais razões para a assimetria de postura
e, conseqüentemente, da assimetria das estruturas ósseas do crânio e da coluna.
Em vinte anos de tratamento de uma variedade de problemas, em crianças pequenas
e bebês recém-nascidos, vimos mais de 5.000 crianças com menos de dois anos de
idade. Baseados nesses casos, chegamos à conclusão que a região sub-occipital
entre o osso occipital e a terceira vértebra cervical (C3), ou seja, a área crânio-cervical,
tem um papel importante no desenvolvimento sensitivo-motor, indo além dos sintomas
vistos na ocasião e atingindo bem na adolescência e até mesmo a fase adulta. Assimetria
do crânio, assimetrias funcionais e padrões neurológicos assimétricos, todos contribuem
com estes diagnósticos.
O termo “Síndrome KISS” é empregado para unir um aparente grupo não coerente de
sintomas e patologias, encontradas em recém-nascidos e crianças pequenas, sua
característica dominante sendo o torcicolo, muitas vezes combinado com
uma assimetria da cabeça.
| Queixas
espontâneas relatadas pelos pais(2) | N
= 263 | | Torcicolo | 89,3
% | | Alcance
reduzido dos movimentos da cabeça | 84,7
% | | Hipersensibilidade
cervical |
76,0 % | | Assimetria
do crânio |
40.1 % | | Opistótono | 27,9
% | | Inquietação | 23,7
% | | Postura
forçada ao dormir |
14,5 % | | Sem
controle dos movimentos de cabeça |
9,5 % | | Usa
muito menos um dos braços |
7,6 % |
Tanto a assimetria de crânio como os fenômenos observados associados a ela, estão
começando a receber mais e mais atenção. Compreender a importância de um desenvolvimento
sensitivo-motor simétrico durante o primeiro ano de vida, permite-nos analisar,
sob um novo contexto, alguns problemas que aparecem muito mais tarde. Vista desta
perspectiva, a assimetria de crânio em crianças pequenas pode ser um sinal de
alarme precoce, indicando um desequilíbrio no desenvolvimento sensitivo-motor,
o qual poderia, com o tempo, levar a desordens, tanto morfológicas quanto neurofuncionais
[7].
Não se precisa tratar a assimetria em bebês como tal. Contudo, um tratamento oportuno
para levar a postura e morfologia simétricas, é de grande valia para se prevenir
tanto os problemas do momento, quanto as complicações futuras. Tendo rastreado
no passado de crianças em idade escolar seus problemas, os quais teriam tido início
em assimetrias de postura [11], pode-se atribuir muito mais importância
a isso do que inicialmente sugeriria sua sintomatologia sem maiores características.
A assimetria de postura e a configuração do crânio são sinais que chamam a nossa
atenção para as condições subjacentes que poderiam passar desapercebidas. Por
focalizar esse principal motivo (prime mover) poderemos, com sucesso, também
tratar a assimetria funcional e morfológica. Figura:
dois bebês KISS com suas assimetrias de crânio. Ambas fotos foram tiradas pelos
pais e estão reproduzidas aqui com permissão amigável. Mostram, em ambos os casos,
uma situação KISS convexa direita com concomitante escoliose, microssomia
do lado esquerdo da face, achatamento da região occipital direita e um aparente
posicionamento assimétrico das orelhas. Todas
essas assimetrias morfológicas levam muitos meses para regredir. O sinal importante
no controle, três semanas após o inicial tratamento, é um movimento livre da coluna
cervical. (2) Todo material estatístico apresentado aqui
tem como base um estudo catamnéstico (acompanhamento de um indivíduo desde de
sua alta hospitalar) de 262 bebês tratados entre julho de 1994 e junho de 1995.
Do total de 554 bebês vistos em nosso consultório, estes foram os que podemos
ainda localizar por telefone ou através do médico ou fisioterapeuta, o qual, inicialmente,
no-los havia enviado. Como é freqüentemente
visto na história do conhecimento médico, nosso quadro de referência mudou através
dos tempos. Já, em 1727, NICOLAS ANDRY, aquele quem cunhou a palavra “Ortopedia”,
havia mencionado o tratamento de torcicolo como sendo um ponto importante
dessa nova disciplina. Retornando às raízes, compreendemos que uma boa postura
em crianças seria a primazia dos diagnósticos e tratamentos ortopédicos: Ortho-Paedica
– “endireitando os jovens” teve tal importância para Andry, que ele empregou esse
conceito como a definição dos procedimentos médicos publicados em seu livro. Esse
eixo fundamental da nova disciplina perdeu-se nos séculos seguintes e a visão
fundamentalmente funcional de Andry teve que abrir espaço para os paradigmas mecanizados
que passaram a dominar a ortopedia nas últimas décadas.
A assimetria em bebês recém-nascidos permaneceu, por muito tempo, como um problema
bem conhecido, mas, lamentavelmente, considerado com grande freqüência, como um
problema que desapareceria espontaneamente, se deixado silente por tempo suficiente.
Durante muito tempo, a assimetria foi relacionada à uma má-função do músculo esternocleidomastóideo:
“A etiologia do torcicolo muscular congênito permanece um mistério apesar
de intensa investigação” é um ponto de vista bastante comum; como Davids et
al. [12], a maioria dos autores ainda coloca a culpa em um trauma
de nascimento no músculo esternocleidomastóideo [13, 14]. O sintoma
era tido como sendo a causa. Pelo menos, nas primeiras fases, o músculo esternocleidomastóideo,
encurtado e espesso, é tão proeminente que parece um “culpado” natural. Este trabalho
discute que ele é uma co-vítima do trauma subjacente às estruturas articulares
da coluna cervical e, como tal, não serviria como um bom ponto de partida para
a terapia ou para análise. Seria bem melhor usa-lo como um indicador da melhoria
promovida por outras medidas terapêuticas.
Há uma controvérsia sobre como reagir a uma postura rígida ou assimétrica em bebês
recém-nascidos. Alguns a consideram uma “escoliose fisiológica” e pensam que ela
“passe”, melhore sem tratamento [15, 16]. Trabalhos mais recentes destacam
a importância das assimetrias na percepção e postura para o aparecimento de posteriores
e mais severas conseqüências [17]. Buchmann comentou: “A existência
de uma gama de desníveis na região sub-occipital de uma criança não é nenhum grande
problema. Somente se sinais adicionais a acompanharem, é que um tratamento imediato
pode vir a ser necessário” [18]. A assimetria é, freqüentemente, encontrada
nos testes de recém-nascidos [19, 20] e o significado clínico disso
precisa ser cuidadosamente examinado. SEIFERT publicou dados de grupos não selecionados
de bebês recém-nascidos, onde ele verificou que mais de 10% de todos os recém-nascidos
mostram sinais de assimetria no funcionamento da coluna cervical superior [21].
Ninguém advoga um programa de tratamento no qual todos esses bebês assimétricos
tenham de ser tratados rotineiramente, mas esses bebês deveriam ser re-examinados
mais tarde e tratados se o prejuízo funcional não desapareceu espontaneamente,
após 4 a 6 semanas. Nós proporíamos que se tivesse uma boa dose e margem de precaução,
especialmente porque a terapia manual é um procedimento de baixo risco, bastante
descomplicado e que não precisa ser repetido mais que uma ou duas vezes.
KEESSEN et al. mostram que a precisão da propriocepção do membro superior
é reduzida nos casos com escoliose idiopática e assimetria da coluna [17].
Como sabemos que a propriocepção dos membros superiores depende grandemente do
funcionamento da região Sub-occipital [22], prejuízos funcionais nessa
região deveriam ser corrigidos o mais breve possível.
Figura:
Melhoria após único tratamento de problemas relativos a KISS. Respostas
de pais entrevistados, de 6 a 18 meses após o tratamento (216 respostas de 236
entrevistas).
| 0
– 24 horas após o tratamento: |
102 | | 01
– 7 dias mais tarde: | 34 |
| 08
– 14 dias mais tarde: | 25 |
| 15
– 21 dias mais tarde: | 33 |
| 22
–28 dias mais tarde: | 22 |
Enquanto
quase a metade dos casos relatou uma melhoria logo após a manipulação, um pequeno
grupo precisou de algum tempo de reação e os efeitos da terapia tornaram-se evidentes
somente de duas a três semanas mais tarde (nenhum outro tratamento feito durante
as três primeiras semanas após a manipulação).
Um
curto resumo da biomecânica do nascimento “Estabilização
da cabeça .... é um processo complexo, que envolve a interação de reflexos desencadeados
por sinais vestibulares, visuais e proprioceptivos” [23]. A maioria
dos sinais proprioceptivos aferentes origina-se da junção crânio-cervical. Qualquer
obstáculo impedindo esses sinais aferentes terá muito mais conseqüências extensivas
em um sistema nervoso em formação, o qual depende de estímulos apropriados para
se organizar [24, 25]. “A maioria do desenvolvimento cerebral ainda
se situa, para os recém-nascidos, no futuro” [26]; esse desenvolvimento
“começa na cabeça” [27]. A estabilização da cabeça e uma adequada provisão
de input da junção crânio-cervical são essenciais para o amadurecimento
do sistema nervoso central. Estas
delicadas estruturas passam por considerável estresse durante o parto, pois nossa
evolução à locomoção bípede exigiu uma radical reestruturação da pélvis humana.
O originalmente canal reto do nascimento teve de ser curvado para caber na nova
situação anatômica. Nossos ancestrais, na África Central, tinham uma construção
pélvica melhor adaptada à locomoção ereta [28]. A circunferência cranial
aumentada do moderno recém-nascido torna a situação bem pior. O canal de nascimento
é um dos mais perigosos obstáculos pelo qual jamais tivemos que atravessar [29].
WISCHNIK
et al. mostrou em estudos experimentais
a biomecânica do parto (ver também [31]).
Durante o parto, a cabeça sofre uma rotação de cerca de 60%, sendo prensada contra
o tronco pelas contrações dos músculos uterinos. A maioria dos recém-nascidos
sofre de microtraumatismo dos tecidos da haste cerebral nas árias periventriculares
[32]. O dano das estruturas intra e sub-cranianas fica sendo, assim,
a regra, e não a exceção (Gottlieb, 1933; Valk et al.,1991). A habilidade
da maioria dos recém-nascidos para superar e reparar estas lesões, mostra-nos
a enorme capacidade do ainda não completamente desenvolvido cérebro para lidar
com isso. Agora que compreendemos que o completo desenvolvimento do cérebro –
o qual dura até o quinto ano – depende de inputs sensoriais consistentes,
a importância de desequilíbrios para uma eficiente reparação das lesões cerebrais,
torna-se evidente.
Esta área está fora do escopo deste trabalho, mas abre fascinantes oportunidades
para a melhoria do plano de terapia para a paralisia cerebral e semelhantes problemas
neuropediátricos.
O trauma nas estruturas sub-occipitais inibe o funcionamento das alças de feedback
(retroalimentação) proprioceptivo. O desenvolvimento motor, embora pré-programado,
não pode se desenvolver de forma normal. Esses sistemas são tolerantes às faltas
e capazes de superar consideráveis dificuldades e condições de trabalho restritas.
Mas o preço disso é, mais tarde, uma reduzida capacidade em absorver estresse
adicional. Crianças que sofreram esse tipo de trauma podem exibir apenas sintomas
menores nos primeiros meses de suas vidas, por exemplo, uma temporária fixação
da cabeça em uma única posição, e se “recuperar” espontaneamente. Posteriormente
– na idade de cinco ou seis anos de idade – sofrem de cefaléias, problemas de
postura ou de sintomas difusos, como o dos distúrbios do sono, incapacidade de
concentração etc. Um número bastante grande dessas crianças, sofrendo de uma dessas
síndromes de “três letras” – como MCD (“Dano Cerebral Mínimo”), POS
(“Síndrome Psico-Orgânica”), ADD (“Disatúrbio do Déficit de Atenção” –
e que tais, têm como um de seus problemas uma desordem funcional da coluna cervical
superior (3)).
Em nossa prática, aprendemos a procurar por sintomas de lesões funcionais da cervical
superior na fase recém-nascida das crianças de escola que nos vieram com problemas
de postura ou de comportamento. A terapia deles, de sucesso, sugeriu que as desordens
funcionais da coluna cervical seriam o principal problema de suas desordens e
retornamos ao seu histórico de desenvolvimento para achar o ponto de partida de
suas patologias. Como regra, encontramos sinais de problemas relativos a KISS
nesses casos, por exemplo, uma postura rígida durante seus primeiros meses, problemas
ao dormir além de muitos outros.
O incentivo para definir a síndrome KISS foi puramente
prático: tendo encontrado uma maneira eficiente e de baixo risco para tratar de
assimetrias de crianças pequenas, tivemos que redefinir alguns conceitos patogênicos.
Se o “encurtado” músculo esternocleidomastóideo “alongar-se” espontaneamente após
uma manipulação da coluna cervical superior, ele não pode ser acusado de ser a
causa do torcicolo. Esse músculo “encurtado” é apenas um sinal, embora
bastante proeminente.
Dois padrões típicos de desenvolvimento precisam ser analisados quando se examina
bebês com problemas de assimetria:
1.
No primeiro
grupo, as simetrias do crânio e de postura estão claramente visíveis desde seu
primeiro dia. Imediatamente após o parto, a postura da cabeça e do pescoço, assim
como a configuração dos ossos do crânio é assimétrica. O ginecologista, ou a enfermeira
obstétrica, pode mostrar isso aos pais.
2.
O bebê parece
estar simétrico após o parto. Além das distorções “normais” da estrutura do crânio,
nada óbvio estaria à vista. A postura assimétrica é observada somente 4 a 6 semanas
mais tarde e desenvolve-se, gradualmente, junto com outros sintomas de KISS.
Não
há necessidade de se tratar todos os recém-nascidos que exibam sinais de assimetria
do crânio; haja vista que, muito freqüentemente, essa assimetria regride, espontaneamente,
nas primeiras 3 a 6 semanas de vida da criança. Freqüentemente, uma terapia excessivamente
zelosa seria desnecessariamente irritante. A maioria dos bebês inicialmente assimétricos
é capaz de se “endireitar” por sua própria conta se concedido o tempo suficiente
para isso. Tendo afirmado isso, devemos enfatizar que esses bebês inicialmente
assimétricos deveriam ser examinados após 5 a 7 semanas e ser tratados naquela
ocasião se os sintomas persistirem.
O controle da cabeça é conseguido entre o segundo e o terceiro mês. Somente, então,
pode-se examinar, de forma significativa, os bebês com a finalidade de averiguação
e tratamento de assimetrias de crânio e de postura. Se tais sintomas forem encontrados,
a diferença entre os dois padrões expostos acima ajudaria a dar uma percepção
na possível causa da assimetria. Em um estágio posterior no desenvolvimento da
criança, esses dois padrões que identificamos, tornam-se menos importantes como
uma ferramenta para a análise da causa das assimetrias.
O tratamento da assimetria do crânio não é obtido por se empurrar ou puxar o crânio
para uma conformação mais ou menos simétrica. Desde o tempo em que os egípcios
utilizavam bandagens em seus recém-nascidos para dar a eles uma cabeça bonita,
sabe-se bem quão maleável são as estrutura da cabeça de um recém-nascido. Não
atenderia a nenhum propósito de utilidade, vir-se a “retificar” a própria assimetria
do crânio, em si. Uma vez que os prejuízos funcionais inerentes forem tratados,
a assimetria diminui, gradualmente. Qualquer a assimetria que persistir depois,
só interferirá devido ao fato que bloqueará o funcionamento normal de informações
sensoriais proprioceptivas. Ao tratar-se um paciente plagiocéfalo com capacetes
corretivos [33, 34], confunde-se o sintoma com a causa, algo semelhante
à miotomia do músculo esternocleidomastóideo, ainda advogada por muitos médicos.
Mas, os efeitos de uma assimetria funcional na morfologia do crânio ou do músculo
não podem ser revertidos simplesmente pela erradicação destes sinais secundários.
Uma vez isso estando acordado, o plano do tratamento torna-se muito mais eficiente
e também simplificado. Outro, e mais funcional, caminho seria o de facilitar os
movimentos delicados das diferentes parcerias ósseas, isto é, terapia crânio-sacral
como apresentada em outra parte desta publicação.
O
quadro clínico da Síndrome KISS
Seria
quase impossível identificar as exatas razões pelas quais um determinado bebê
teria problemas relacionados com KISS. Por vezes, encontramos, através
de uma completa anamnese, maciças assimetrias em bebês. Em outros casos, a criança
tem tudo contra ela: posição oblíqua intrauterina, um longo e difícil parto com
o uso do extrator (fórceps) na fase final, e acentuada deformação do crânio imediatamente
após o nascimento. Mas, seis a 10 semanas depois, algumas dessas crianças estão
sem os sintomas do tipo KISS e estão retas como verdadeiras flechas. Torna-se,
portanto, extremamente difícil definir a origem e resultado final em relação a
qualquer determinada criança. Contudo, examinando-se uma centena (ou mais), um
quadro se configura:
Os grupos de risco que encontramos em nossas estatísticas [35, 36],
são - Parto demorado
- Extração
por vácuo etc
-
Gêmeos ou trigêmeos
- Anomalias pré-natais
de posição
Qualquer combinação desses fatores
é possível. Um feto posicionado obliquamente tem maiores dificuldades em adaptar-se
às contorções do canal de nascimento e um parto demorado freqüentemente resulta
no uso de ajudas de extração etc.
O
denominador comum é o estresse mecânico exercido na mais estrutura vulnerável,
isto é, nos tecidos cerebrais e na ária occipito-cervical, com grande densidade
de estruturas sensoriais e de transporte.
O
que constatamos nesses casos pode ser classificado em quatro categorias:
1.
Assimetria de postura
2.
Assimetria
de movimentos
3.
Assimetria
morfológica
4.
Assimetria
de comportamento, isto é, reações não apropriadas aos estímulos externos.
Esta
classificação, como em qualquer tentativa de se ordenar um quadro clínico, deveria
ser concebida com certa cautela. Como um exame mais cuidadoso dos sinais mostraria,
eles são tão comuns que seu significado para o diagnóstico de um caso KISS
só pode ser aceito de forma tácita se ocorrer em uma combinação. A assimetria
– funcional ou morfológica – é o sinal principal. A presença ou ausência de uma
assimetria do crânio (isto é, morfológica) determina a necessidade de terapia
manual. A fisioterapia sem um tratamento diretamente na articulação crânio-cervical
mostrou-se insuficiente.
Os principais itens encontrados nos
recém-nascidos e crianças pequenas (até 24 meses), as quais nos foram encaminhados
para tratamento, foram: - Postura
da cabeça e coluna sem prumo, torcicolo
- Opistótono,
freqüentemente com um ponto KISS, isto é, uma abrasão assimétrica dos pelos
da parte occipital
- Postura
de dormir uniforme, dificuldade em achar uma posição de dormir conveniente
- Distúrbios
do sono, o bebê freqüentemente acorda chorando durante a noite
- Padrões
motores assimétricos assim como do tronco e extremidades: o braço do lado côncavo
é menos freqüentemente usado
- Nos
casos com acentuada retroflexão da cabeça os braços são freqüentemente mantidos
fixos em uma posição extrovertida, “asas de galinha”
-
Extrema
sensibilidade no pescoço à apalpação; cabelos muito mais escassos, em especial,
em um só lado
- Escoliose
do crânio ou plagiocefalia, combinada com região occipital achatada
-
Microssomia
unilateral, isto é, edema de tecidos moles de um dos lados da face
- Bloqueio
das articulações íleosacrais, assimetria dos músculos glúteos
-
Desenvolvimento
assimétrico e de alcance dos movimentos, dos quadris, em especial do lado côncavo
- “Cólicas dos Três
Meses”, freqüentemente combinadas com:
- Bebês
chorões, isto é, choro constante e desconforto óbvio sem infecção aparente etc
- Febre de origem desconhecida,
perda de apetite e outros sintomas.
Temos
que ter cuidado de não enfatizar demais a importância do torcicolo e ou escoliose
em “C”, na discussão da síndrome da KISS. Considerar estes sinais como
sendo os mais importantes seria como um diagnóstico automático. A maioria das
crianças é encaminhada à terapia manual, primariamente porque este tipo de postura
assimétrica é aparente. Colocar estas duas condições específicas no topo da lista
seria uma discussão em círculo vicioso: como vimos, elas são as mais destacadas
características, mas, não necessariamente, os mais importantes agentes causais.
Vimos que outros sintomas menos específicos freqüentemente precedem a assimetria
e, certamente, as alterações morfológicas de crânio.
Durante muitas décadas, o tratamento desses bebês consistiu em colocar aparelhos
ortopédicos, engessados enquanto dormiam, ou bandagens de couro para “retificar”
sua postura assimétrica de coluna. Um mais recente aparelho deste tipo de plano
de tratamento mecânico é o “capacete corretivo” [33].
O resultado final do tratamento dos bebês vindos com todos
os sintomas mencionados acima mostra que, embora as assimetrias de postura e de
crânio possam ser o problema mais visível – e o problema mais facilmente relacionado
a uma disfunção da coluna cervical superior – os outros males são tratados pela
manipulação tão eficientemente quanto. Os “bebês chorões” são um exemplo: uma
vez excluídos os “usuais suspeitos”, isto é, as infecções gastrintestinais – a
manipulação da região occipital/cervical é especialmente de efeito.
Esta
boneca de argila exibe os típicos sinais de assimetria do crânio encontrada em
bebês KISS. Aqui, mostra-se um caso convexo à esquerda. As estatísticas
sobre essas crianças mostram uma postura convexa à esquerda do tronco, retardo
do desenvolvimento do quadril à direita, movimentos menos espontâneos de perna
e braço esquerdos, inabilidade de rolar e de olhar para a direita, assim como
uma recusa em girar a cabeça à esquerda.
Os sinais morfológicos na cabeça são: uma bochecha direita
menos desenvolvida, um olho “menor” na direita, uma linha mediana facial em forma
de C e convexa à esquerda (isto é, uma microssomia do lado direito da face), e
um achatamento do lado esquerdo do occipital.
A
forma segue-se à função
Imediatamente
após terem nascido, os bebês, com certa regularidade, exibem os sinais das forças
exercidas na sua estrutura craniana. Como regra, a resultante configuração da
cabeça permite aos médicos analisar a maneira do parto, isto é, como a cabeça
estava posicionada enquanto passava pelo canal de nascimento. Com freqüência,
uma configuração assimétrica do crânio vem combinada com os vestígios de um hematoma.
Estes sinais morfológicos do trauma do parto desaparecem
durante as primeiras semanas. Neste estágio, podemos distinguir entre aquelas
assimetrias cranianas causadas pela deformação das estruturas ósseas do crânio
durante a passagem através do canal de nascimento e a assimetria induzida por
uma postura assimétrica. Nossa opinião é a de que o segundo grupo seria bem mais
numeroso.
Além dos bem poucos casos de microssomia unilateral primária (vemos menos de 1%
nos bebês tratados), uma assimetria craniana começa como uma assimetria de postura.
A perda funcional, se desconsiderada por suficiente tempo, leva à alteração morfológica.
Dois tipos são discerníveis:
Assimetria primária:
Escoliose facial e craniana no plano sagital
e frontal. A assimetria primária pode ser vista imediatamente após o parto e é,
facilmente, distinguido do não-alinhamento do crânio por incluir uma postura escoliótica
da coluna cervical ou do corpo todo. Desnecessário dizer que seria impossível
traçar uma linha divisória entre esta primeira e uma assimetria secundária. Os
bebês recém-nascidos que exibem este tipo de postura fixa e assimétrica tendem
a ter estado em uma posição oblíqua durante as últimas semanas da gravidez ou,
pelo menos, não se moveram muito durante esse tempo.
Assimetria secundária: Achatamento unilateral do occipital devido à retroflexão
forçada. A assimetria secundária estaria gradualmente se desenvolvendo após o
nascimento e, portanto, só é reparada após algum tempo, usualmente de 6 a 8 semanas
após o nascimento.
A
assimetria primária é o menor grupo dos dois; em nosso histórico de casos, a porcentagem
varia entre 20% a 30%. Um grupo muito maior é de recém-nascidos que são retilíneos
ao nascer e nada de especial pode ser constatado. Somente após seis a dez semanas
é que estes bebês desenvolvem uma postura cada vez mais assimétrica. No começo,
os pais podem tentar agir contra esta postura preferencial colocando brinquedos
ou outros estímulos no lado menos usado. Em alguns casos, esta simples manobra
resolve o caso. Em outros, os bebês não reagem quando seu brinquedo favorito é
colocado no lado “errado”, ou eles tentarão alcançá-lo e gritarão de frustração
quando não conseguirem alcançá-lo. Nesses bebes um obstáculo interno os impede
de usar o lado “errado”.
Muito
interessante é que os mais sutis sinais da síndrome KISS, muitas vezes,
precedem a assimetria no desenvolvimento clínico da própria assimetria. Antes
de uma cabeça em posição oblíqua ou uma escoliose em “C” ser vista, os bebês causam
preocupação porque choram incessantemente, são irrequietos e irritáveis e não
querem ir para a cama. As mães dessas crianças passam horas carregando-os e cantando
para fazê-los dormir. “Tenho que me certificar de que ela (criança) estaria em
sono profundo nos meus braços antes que eu possa tentar colocá-la na cama,” é
um comentário freqüentemente feito. Esta cadeia de acontecimentos torna provável
que o ponto de partida do problema todo seja um pescoço dolorido. Como bebês recém-nascidos
não podem reagir de forma específica a uma irritação, eles exibem os bem conhecidos
sinais de disforia. Um bebê de três meses de idade que chora, pode, necessariamente,
não fazê-lo por causa de uma dor no pescoço – há muitas razões para isso – mas
isto é, ao menos, uma boa razão para a qual deveríamos atentar.
A
origem do desconforto do bebê não é, necessariamente, óbvia ao pai, ou mesmo ao
pediatra, os quais o observam. Uma das maneiras menos agradáveis de tentar “racionalizar
a dispensa” do problema, é a de por a culpa em uma mãe exageradamente atenciosa.
Ninguém duvida que dar atenção demasiada pode provocar tais reações em uma criança
de três ou quatro anos de idade, mas, nos primeiros anos de suas vidas, os pequeninos
simplesmente não possuem os meios para analisar tal atitude materna, a qual dirá
a capacidade de reagir a ela. Como é o caso na análise dos primeiros meses, muitas
vezes enganamo-nos ao extrapolar o que presumimos estar “correto” em crianças
mais velhas, ou adultos, neste estágio inicial do desenvolvimento, esquecendo
que um sinal exibido na idade de nove anos, e o mesmo sinal exibido aos seis meses
de idade, não têm, necessariamente, a mesma causa.
Quando
começamos a tratar de crianças pequenas, não traçamos uma linha divisória entre
os diferentes tipos de assimetrias: qualquer coisa não simétrica é considerada
como sendo da mesma espécie. Somente foi, após ter visto muitos casos, que fomos
capazes de distinguir entre dois tipos de assimetrias, uma primariamente localizada
no plano frontal, isto é, postura com escoliose; a outra no plano sagital, isto
é, hiper-extenção ou postura em opistótono.
Esses dois tipos de assimetria podem ocorrer separados
ou conjuntamente. O tipo mais comum combina uma postura nitidamente com escoliose
com um componente de retroflexão. Novamente, isso não deve significar, necessariamente,
que represente a maioria dos casos tratáveis, apenas os quadros clínicos mais
facilmente perceptíveis e, portanto, diagnosticáveis.
Vemos um interessante desenvolvimento na maioria dos contatos entre nós e os pediatras.
O grupo inicial de bebês que foi-nos enviado representa uma razoavelmente “típica”
coleção de pequenos pacientes com uma “clássica” escoliose em “C”. Após ter verificado
os efeitos nessas crianças, os colegas se tornaram mais cônscios de outros sinais
relacionados à síndrome KISS, mas, obviamente, menos voltados, à primeira
vista, para a parte cervical, como em bebês chorões, com distúrbios do sono ou
vômitos freqüentes. Esses bebês, então, são-nos enviados, com base nos sintomas
“menos óbvios”. Seria menos uma triagem à procura de assimetrias, que da sintomatologia
secundária, a qual se torna a nossa principal participação na colaboração.
Esses colegas encaminham os bebês com “cólicas”, bebês chorões ou crianças que
têm problemas ao deglutir; eles são também um pouco assimétricos, mas essa
assimetria não é tal que force a mãe a ir ao pediatra, ou fazer que este pense
em recomendar o bebê à terapia manual. Temos que ser alertados quanto ao escopo
dos problemas originados no mau funcionamento da coluna cervical e a forma anormal
do crânio antes que possamos reconhecer seu potencial terapêutico. A assimetria
de postura e sua repercussão morfológica atraem nossa atenção para a sintomatologia
cervical. Uma
janela da oportunidade
A
conquista de qualquer habilidade requer um período de aprendizado e uma predisposição
para ser obtida. O ponto ideal para uma habilidade específica estaria embebido
no padrão temporal de desenvolvimento filogeneticamente fixado. Aquisição de linguagem
é um exemplo com o qual somos confrontados freqüente e dolorosamente: ao passo
que nossos filhos absorvem outro idioma sem o menor esforço, nós, adultos, laboramos
e trabalhamos e jamais conseguiremos o mesmo nível de domínio sem esforço, com
o qual nossos filhos crescem até a puberdade.
Todas as nossas capacidades estejam vinculadas à movimento
ou percepção, são construídas sobre habilidades fisiológicas e mentais aprendidas
anteriormente. Quanto mais cedo a fase de aprendizado de uma habilidade básica
se situar na ordem “natural” dos acontecimentos, tanto pior sua aquisição imperfeita
interferirá, posteriormente, o desenvolvimento cognitivo e motor.
O
controle da cabeça situa-se muito cedo nessa ordem de acontecimentos, o que seria
uma das razões para as conseqüências de longo termo, de seu mal-funcionamento,
terem tanto alcance. Esta seria, também, a razão primária para que devamos verificar
e tratar até mesmo os menores sinais de assimetria da postura, ou da forma da
cabeça: podem não parecer tão impressionantes naquele estágio, mas podem vir a
causar um “descarrilamento” do desenvolvimento cinesiológico e, assim, necessitar
de um tratamento muito mais extenso nos anos posteriores. Desequilíbrios cinemáticos
levam a assimetrias de comportamento e de morfologia. “Indivíduos simétricos parecem
ter vantagens significantes, quantificáveis e evolucionárias, sobre seus assimétricos
equivalentes” [5]. Encontramos sinais de assimetria e KISS no
período recém-nascido de 72% de crianças de escola que observamos (e tratamos
com sucesso), com cefaléias e problemas de postura e comportamento. As sementes
dos problemas que vêm à tona dos oito aos dez anos de idade podem ser rastreadas
aos sintomas KISS antes das crianças assumirem a postura vertical, isto
é, durante o primeiro ano de vida. Esta é a principal razão porque uma atitude
de vigilância, para com os sinais mais mínimos de assimetria funcional nesse primeiro
estágio de desenvolvimento neuromotor, seja necessária.
Mesmo
os bebês tratados com sucesso, continuam a carregar consigo a marca de sua assimetria
inicial. Em momentos de exaustão ou após períodos de crescimento rápido, eles
voltam a exibir a postura assimétrica anterior, pelo menos temporariamente. Na
maioria dos casos, esses sintomas cedem espontaneamente e nenhum tratamento é
necessário. Somente se a assimetria persistir por mais de alguns dias, dever-se-ia
intervir com terapia. Tratamento
A
Terapia Manual é, por definição, um ofício e, portanto, depende da habilidade
e da atitude do terapeuta individual. A raiz etimológica da palavra alemã “Be-handlung”
(tratamento) indica quão básico seria este princípio, assim como é este termo
mais estreito “mani-pulação”, na sua forma latina. Mas, onde termina a terapia
manual, onde se iniciam as massagens, osteopatias e quiropatias?
A
resposta a isto depende, em grande parte, de onde o indivíduo está situado. Sabemos
como um exame “normal” de um paciente para um diagnóstico altera a situação clínica;
não se pode traçar uma divisória precisa entre um teste e uma terapia, muito menos,
então, limitar-se, qual seja o resultado positivo obtido em um paciente, para
o uso exclusivo de um grupo profissional. Poderemos, apenas, fornecer alguns parâmetros
ao ensinar o tratamento de desordens funcionais de origem vertebral, nada mais.
Contudo, há fatores essenciais para ajudar a maximizar a eficiência e minimizar
a quantidade de tempo necessária. Ao se ler o livro de ANDRY, escrito no começo
do século XVIII, encontrar-se-á muitas dessas técnicas manuais de que se pode
ler em publicações contemporâneas, como se fossem os mais novos truques do mundo.
O livro de NAEGELI [37] escrito há 100 anos relaciona algumas das nossas
técnicas “modernas” dentro de outro contexto, mas como comparáveis indicações.
Essa relação poderia ser expandida quase indefinidamente. Esta é uma das
razões pelas quais nenhuma instrução de “Como Usar” é dada aqui. A técnica que
um determinado terapeuta usa, depende tanto de sua habilidade individual quanto
da estrutura material na qual tem de trabalhar. Seria pouco útil dizer a alguém
que tem que trabalhar em uma favela, que ela tem que radiografar (raios-X) aa
coluna cervical. Portanto, quero limitar os conselhos de “Faça” e “Não Faça”,
a uma advertência: Não tratem com tanta freqüência!
Por mais simples que esse conselho possa parecer, é um
conselho extremamente difícil de ser seguido. Todos os envolvidos desejam o sucesso
“quanto antes” e com razão. Mas é uma das missões do profissional saber quando
esperar um resultado de um tratamento e, quando souber que isso poderia levar
mais de duas semanas, precisar-se-á passar esta informação aos pais. Uma terapia
na qual se tem um excesso de zelo, torna-se um dos principais motivos de resultados
insatisfatórios. Nos primeiros anos, consistentemente, dissemos aos pais para
retornar às outras terapias imediatamente após a manipulação, “para fazer um melhor
uso da liberação de movimentos permitidos pela manipulação”. Ficamos bastante
atônitos em ver que em alguns casos nos quais isso não foi possível (a mãe estava
tão doente, o fisioterapeuta estava de férias etc.), os resultados foram melhores
que os usuais. Isso nos levou a experimentar com uma pausa na terapia, duas a
três semanas após a manipulação, e constatamos melhores resultados reproduzidos
após a introdução desta regra.
Porém,
tendo escrito isso, somos, ainda, levados a mostrar como o tratamento funciona.
Apenas para dispersar a noção de que exista uma coisa com um “toque mágico”, descrevamos
o procedimento:
Se desejar tratar uma criança pequena, gaste seu tempo tentando ganhar a confiança
dos pais primeiro. Lembre-se que uma mãe ansiosa transmite seu pavor ao seu filho.
A excitação e o nervosismo que isso incute numa criança não podem ser facilmente
desprezados. Deve-se sempre considerar que uma suposição quase axiomática decreta:
“Uma terapia muito eficiente precisa ter efeitos secundários muito impressionantes”.
Posso relembrar mais de cinco mil recém-nascidos tratados, e a maioria deles (mais
de 80%) tratada satisfatoriamente por seus pais e médicos, com manipulação sem
uma única complicação séria. Mas aqueles que iniciam seu trabalho neste campo
precisam exercitar, ainda que com menos experiência e, ainda assim, ser capazes
de transmitir confiança aos pais das crianças. Figura:
Idade no primeiro tratamento (meses): N = 263
Por
que não ficar com os métodos “clássicos” de fisioterapia e tratamento gradual?
- O
estresse sub-occipital é o principal fator. Sem a sua remoção, os sintomas podem
ser tratados pela fisioterapia, mas a reaparição dos sinais e sintomas (recidiva)
causados pelo esforço sub-occipital pode, mais tarde, requerer manipulação na,
ou entrando na, idade escolar.
- Remoção
do estresse sub-occipital é a maneira mais rápida e eficiente de tratar os sintomas
de KISS; uma sessão é, na maioria dos casos (81% uma vez, mais 16% duas
vezes), suficiente.
- A
manipulação da região occipito-cervical leva ao desaparecimento de problemas não
relatados pelos pais, porque eles não haviam visto nenhuma relação com a coluna
vertebral. Mais tarde, especialmente quando realizamos verificações retrospectivas,
ouvimos, vez após vez, que “João (ou Maria) dorme (ou come) muito melhor depois
do tratamento; é outra criança, sob todos os aspectos...”, etc.
-
Esta
terapia requer a cooperação dos bebês ou de seus pais, ao passo que a maioria
das formas de fisioterapia precisa depender da complacência dos pais.
Não
tratamos propriamente a assimetria do crânio. Ela é considerada um sinal de um
problema subjacente. Tratando da coluna cervical superior e otimizando seu funcionamento
restabelecemos a gama total dos movimentos da cabeça e do pescoço e, assim, induzimos
novamente a simetria das estruturas morfologicamente alteradas do crânio. Enquanto
a melhoria funcional é detectada após duas a três semanas, a redução da assimetria
do crânio leva muitos meses. É importante chamar a atenção dos pais para o nível
funcional do problema, sem o que eles se tornam impacientes e tendem a querer
tratamento demasiado.
O
processo empregado é, basicamente, o da manipulação de impulso. O bebê fica deitado
na mesa de exames em frente do terapeuta. Após o exame cinesiológico e neurológico,
a criança é colocada em decúbito dorsal e examinam-se os segmentos da coluna cervical.
As verificações são comparadas à análise por radiografia. É importante ter paciência,
pois é mais difícil de se examinar crianças agitadas. Cuidadosa massagem de fricção
nos músculos curtos do pescoço ajuda a apalpação manual. Ao contrário de uma situação
com adultos, não há um “limite de alcance” para uma ação de manipulação. Deve-se
ser muito cuidadoso e isso ajuda a compreender que não se pode melhorar o prognóstico
pelo uso de mais força. Medimos a força utilizada no tratamento de bebês e adultos
[38]. No tratamento de bebês, a força seria de 15 a 20% da força empregada
com adultos.
Figura:
um
exame típico da coluna cervical superior com radiografia.
Para ser capazes de analisar a articulação occipto-cervical,
deve-se tomar cuidado em abrir a boca do bebê o suficiente para permitir a projeção
dessa junção o/c entre os dentes. O alinhamento da cabeça tem de ser escrupulosamente
observado para evitar efeitos de projeção.
Esta radiografia mostra uma marcada lateralização do osso
occipital e 1a. vértebra cervical e indica uma postura escoliótica
do corpo com uma convexidade esquerda. É importante enfatizar que a 1a.
Vértebra (Atlas) se move em direção à convexidade antes que os bebês assumam
a postura vertical. Depois, C1 é empurrado para dentro da concavidade por uma
cabeça em diagonal, devido ao ângulo entre a orientação do plano de junção C0/C1
e C1/C 2 [39, 40].
Na maioria dos casos, a direção da manipulação è determinada pela verificação
radiológica (85%). Nos demais casos, a orientação do torcicolo, a apalpação
de disfunções segmentais ou uma reação local à dor, ajudam a encontrar o melhor
caminho. A manipulação em si consiste de uma rápida pressão da falange proximal
da margem medial do segundo dedo. Se a retroflexão for o componente principal
da postura fixa, a manipulação pode ser aplicada através do processo transverso
de C1 em uma direção sagital.
Acreditamos que a seleção da técnica específica sem uma análise funcional da radiografia
da coluna cervical, diminui a eficiência deste tratamento. Como não é tão fácil
assim obter bons resultados radiográficos, alguns colegas tendem a dispensar a
necessidade de consultar as observações radiológicas. Além da melhoria de técnica
de tratamento, uma análise correta revela os problemas morfológicos em 6 a 8%
dos casos (Biedermann & Koch, 1996) [41]. Radiografias padrões
da coluna cervical incluindo a região Sub-occipital no sentido antero-posterior
durante os primeiros 18 meses são suficientes – devem ser de excelente qualidade
e nenhuma manipulação na região Sub-occipital deveria ser feita sem elas.
A técnica em si exige sutileza e longos anos de experiência no tratamento manual
da coluna cervical superior de adultos e crianças em idade escolar. Nas mãos dos
experientes, o risco é mínimo; ainda não encontramos nenhuma complicação séria.
As forças empregadas durante a manipulação foram testadas com um aparelho calibrado
de teste de pressão; elas não excedem a força usada para, energicamente, apertar
um botão de campainha. A maioria das crianças chora momentaneamente, mas pára
assim que está nos braços das mães. Em três casos (entre
±
5.000 infantes), as
crianças vomitaram após o tratamento; isso não teve nenhum efeito negativo no
resultado e houve, pelo menos, o mesmo número de bebês que já vomitavam durante
os testes de rotina para determinar seu estado neurológico.
Resultados:
O
principal objetivo de qualquer terapia deveria ser o de resultar no melhor possível,
com um mínimo de tempo e de despesa necessários. O método proposto aqui preenche
esses requisitos de forma bastante boa, infelizmente com um percalço: temos que
ter um pouco de paciência.
Dos
263 casos (152
meninos, 109 meninas) escolhidos randomicamente dos 554 bebês tratados em junho
de 1994 e junho de 1995, temos alguns dados, aqui, compilados. Foram tratados
213 bebês apenas uma vez, e 41 duas vezes. Apenas 3% foram tratados mais vezes
(4 bebês por três vezes, e 2 bebês por quatro ou cinco vezes). Para se ter uma
idéia do tipo de resultado que poderia ser esperado de uma terapia manual bem
aplicada, contamos, inicialmente, com uma avaliação dos pediatras e ou fisioterapeutas
que encaminharam as crianças.
Na amostragem de 263 crianças, conseguimos obter 195 avaliações.
Respostas:
|
Muito satisfeito com o efeito do
tratamento |
40,5%
|
79
| |
Satisfeito com o efeito do tratamento
|
31,3%
|
61
| |
Moderadamente satisfeito com o tratamento
|
2,6% |
05
| |
Não satisfeito com o tratamento
|
2,6% |
05
| |
Sem comentários |
23,1%
|
45
| A
avaliação dos pais, como se segue:
|
Muito contentes com o efeito do tratamento
|
62,7%
|
165
| |
Contentes com o efeito do tratamento
|
24,7%
|
65 | |
Moderadamente contentes com o tratamento
|
9,1% |
24 | |
Não satisfeitos com o tratamento
|
3,0% |
8 | |
Sem comentários |
0 |
0 |
Estes
resultados podem ser relacionados a diferentes sintomas principais
|
Sinais |
(Muito)
bons resultados após |
Melhora
|
Sem
alteração |
Total
| |
|
1 dia |
1 semana |
2 semanas |
3 semanas |
|
|
|
|
Torcicolo |
78
|
28
|
33
|
19
|
40
|
25
|
223
| |
Opistótono |
10
|
06
|
05
|
07
|
12
|
05
|
45
| |
Inquieto/choroso |
26
|
05
|
06
|
02
|
06
|
07
|
52
| |
Sono com posição fixa
|
16
|
03
|
03
|
06
|
04
|
01
|
33
|
Alguns detalhes que merecem menção:
- Realmente,
leva-se algum tempo para o tratamento ter efeito, independentemente do sintoma
tratado, e
- Na
maioria dos casos nenhuma terapia adicional foi necessária – ou, se foi, esta
foi muito mais eficiente.
- Alterações
funcionais precedem a melhoria funcional e aqui as assimetrias de tecido mole
(por exemplo, as bochechas em uma microssomia unilateral) desaparecem muito mais
rapidamente que as assimetrias ósseas.
- A
parte dorsal achatada de algumas cabeças melhorou mais rapidamente que uma região
frontal assimétrica. A parte dorsal levou de 3 a 5 meses para ficar quase simétrica,
ao passo a região frontal pode levar quase um ano. Se os bebês tivessem mais de
9 meses de idade na ocasião do tratamento, dever-se-ia advertir os pais que um
resto de assimetria, funcionalmente insignificante, poderá persistir.
- Estes
resultados são apenas obteníveis em bebês tratados antes ou, ao menos, na ocasião
da aquisição da postura vertical. Após o primeiro aniversário, a efetividade da
terapia funcional decresce rapidamente.
Em
alguns casos muito raros, somos tentados a usar o termo “assimetria maligna” para
classificar aqueles bebês nos quais um tratamento corretamente aplicado não leva
ao resultado esperado, a despeito do fato que nenhum detalhe de complicação haja
aparecido. Se uma melhoria esperada não se materializa, verifique-se o seguinte.
1.
Houve algum trauma logo antes,
ou depois, da manipulação?
2.
O terapeuta trata com grande freqüência e ou sem tempo
suficiente entre manipulações?
3.
A mãe seguiu com a fisioterapia imediatamente após
a manipulação?*
4.
Teria passado desapercebido algum problema neurológico
de complicação?
5.
Teria passado desapercebido um problema morfológico
na coluna cervical ou torácica superior?
*
Freqüentemente observado quando a mãe é uma profissional, isto é, na maioria dos
casos, uma fisioterapeuta.
É
bastante surpreendente observar com qual freqüência um desses motivos aparece.
Para ajudar a distinguir entre um efeito adverso do tratamento e outros fatores,
é importante ser muito preciso sobre as ocasiões. Por vezes os pais nos procuram
para dizer que “depois do tratamento a criança piorou”. Porém, quando indagamos
com mais detalhes, os pais revelam que a crianca não teve no início nenhuma reação
espetacular ou positiva somente, mas que, somente após “ter feito alguma ginástica
no outro dia”, ou “ter sido chacoalhada pelo irmão mais velho”, ou “ter tropeçado
na bicicleta da irmã” etc. etc., é que a criança piorou.
Na maioria dos casos, os sintomas desaparecem espontaneamente se concedermos tempo
suficiente e se ninguém interferir prematuramente. Até mesmo um bem intencionado
tratamento adicional é demais e, por vezes, menos é mais. Se os sintomas retornam
ou têm uma intensidade aumentada, pensa-se realmente em algo maligno, mesmo se
o tratamento inicial havia melhorado a situação por dias ou semanas. Pelo menos,
após a segunda recaída seria de vital importância solicitar um exame neuropediátrico,
incluindo Ressonância Magnética ou procedimentos comparáveis [44-45]
Reprodutibilidade
individual e interpessoal
Como já foi mencionado, estamos lidando aqui com uma forma de terapia, a qual
depende, em grande parte, do grau de competência que o terapeuta tem, individualmente,
a seu dispor. Assim, comparações entre diferentes práticas são difíceis. Se um
terapeuta é capaz de tratar um determinado problema, não é necessariamente verdade
que todos aqueles que possuam um diploma em terapia manual, ou na quiroprática,
sejam capazes de fazer o mesmo, apenas por seguir a receita dada. Este problema
básico de qualquer comparação interpessoal é compartilhado pela maioria das atividades
médicas e paramédicas. Pensemos sobre a psicoterapia ou a cirurgia, mas também
em algo não tão dramático quanto uma massagem ou mesmo um penteado – todos esses
serviços prestados aos outros podem ser absoluta e individualmente reproduzíveis,
mas não são, necessariamente, da mesma qualidade quando administrados por outra
pessoa.
Tão básico quanto isto possa parecer, este dilema fundamental é raramente tratado
nas publicações científicas. Todos se sentem muito mais à vontade com a presunção
de que se teria que seguir lições suficientes e amealhar suficientes diplomas
para ser tão bom quanto qualquer outro. Certamente não é bom para o marketing
de nosso conceito de terapia KISS citar esse problema, mas lidando com
um tópico tão sensível quanto a terapia manual em crianças pequenas, o assunto
não pode ser evitado.
Epílogo
Tendo chegado até aqui, o leitor poderia desejar perguntar a si mesmo (e a mim):
“Bem, parece mais ou menos convincente, mas como se pode ter certeza de que esta
seja a solução?” Existem tantas outras propostas – a mais recente sendo esta –
e ela, realmente, parece ser simples demais para poder ser boa. Poder-se-ia referir
ao uso do acrônimo KISS na educação administrativa, na qual os consultores
de gerenciamento dizem “Keep It Simple, Stupid!”
(Mantenha isto simples, estúpido), mas a prova final é o sucesso do plano
de tratamento com base nas idéias aqui esboçadas. Em quase 80% dos casos, apenas
um tratamento é suficiente. Precisamos manter isso em mente, mesmo, que muitos
outros problemas imitem a mesma sintomatologia. Portanto, mantendo-se o quadro
geral em foco, poder-se-á ser capaz de evitar essas armadilhas.
Se, e quando, houver uma razão para acreditar que uma dada situação clínica seria
primariamente causada por um problema funcional da coluna cervical superior, a
terapia proposta aqui é simples, eficiente e de diagnostico não exigente. Se alguma
vez ela não tiver sucesso, nada terá sido perdido, além de duas ou três semanas.
Se tiver sucesso, a mãe e a criança foram poupadas de tratamentos que consomem
muito tempo e energia, e as coisas, efetivamente, foram mantidas simples.
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Dr.med.Heiner Biedermann
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Chirurg / Chirotherapie
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44137 Dortmund
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